Wednesday, 4 May 2011

Met Gala e a mesmice no tapete vermelho

Taí uma coisa que muito pouca gente entende: o baile de gala do Costume Institute do museu Metropolitan, em NYC. Na verdade, taí uma coisa que muito pouca gente acompanhava - até uns 3-4 anos atrás, quando a coisa resolveu estourar, ficou cheia de celebridades dando pinta e de repente, virou um evento de red carpet. Fato que já há um tempo o círculo da moda acompanhava o Met Gala (como é conhecido), e sim algumas celebridades eram convidadas e apareciam por lá. E que também fotógrafos e repórteres cobriam o evento. Mas nunca foi assim um "tapetão vermelho" Oscar-style. E agora o é; está em todos os sites, blogs, sejam eles de moda ou não. Virou um evento.




O interessante é que o Met Gala não tem força para ser um tapete vermelho no estilo do Oscar. Não porque não seja importante - muito pelo contrário! - mas porque a essência do Met Gala é outra. O Costume Institute é uma seção do Metropolitan que gerencia a curadoria de exposições de moda no museu. Todo ano eles fazem essa festa de gala para lançar uma nova exposição e para angariar fundos para esta seção do museu - seja para adquirir novas peças, trazer novas exposições, manter a instituição. E o especial desse baile de gala é que ele é TEMÁTICO. Ou seja, todo ano existe um tema, normalmente vinculado à exposição.

E o que se entende como tema? Pois bem... para mim, entenderia como se fosse festa à fantasia. Normalmente o que os convidados faziam era tentar se relacionar com o tema através de suas roupas - opção meio óbvia já que é um evento de moda! Então era uma "festa à fantasia super fashion", por assim dizer.


a entrada do Metropolitan preparada com o tapete vermelho para receber os convidados do Costume Institute Gala Ball


E aí que esse ano o tema era Alexander McQueen. Pouco mais de um ano depois da morte do designer, o Costume Institute resolveu montar uma exibição com peças de um designer celebrado porém muito pouco compreendido. Os desfiles de McQueen são complicados, intricados, com uma nuance dark e influências que não são de fácil absorção. Eu mesma me incluo na lista dos possíveis bilhões de pessoas que não compreeendem perfeitamente o que significa um desfile ou uma peça de McQueen. É realmente difícil entender porque grande parte de suas influências são históricas, misturadas com coisas imaginárias e muita contraposição entre bem e mal, céu e inferno, sombrio e luz.








a teatricalidade, o sombrio e a beleza das peças de passarela de McQueen


McQueen tinha um amor inigualável ao romantismo dark da era vitoriana, às pinturas flamencas (da Holanda, não as dançarinas espanholas!), ao gótico e à natureza. E a sua técnica foi estabelecida na Saville Row - a rua de Londres mais conhecida pelos seus inúmeros ateliers de alfaiates - e a estrutura de suas roupas sempre foi muito celebrada. Misturar todos esses elementos não é fácil, e normalmente por isso suas coleções sempre pareciam agressivas aos olhos. Mas, se separadas em pequenas partes, é uma ode linda ao que um criador pode elaborar, com mil e uma técnicas diferentes e um resultado mais que belo.


vídeo feito pelo Metropolitan Museum sobre a coleção - 
o curador da exibição passeia pelas salas e explica toda a concepção dos ambientes


Tenho que dizer que fui visitar amigos uma vez em Londres e me deparei com a mais recente coleção de McQueen (naquela época, verão de 2008) exposta nas vitrines da Selfridges. Eu já ensaiava meus passos na mudança de economista para alguém que trabalha com moda e aquele momento foi como uma catarse pra mim. Eu fiquei fácil uns 25 minutos parada, estática no meio de uma Oxford Street borbulhante, com gente me empurrando e passando rapidamente, só admirando aquelas peças. Pra mim, até hoje, é uma das minhas coleções favoritas (ever mesmo, de todos os designers e de todos os tempos!) e me fez chorar no meio de uma rua. Eu nunca vi algo tão perfeito e tão lindo - obviamente é uma das coleções de McQueen menos agressivas e com menos influência dark (tenho que dizer aqui que não curto muito coisas dark...) - mas foi algo que mexeu profundamente comigo.


a coleção de outono/inverno 2008, que eu tive o prazer de ver nas vitrines da Selfridges


E eu acho que a intenção de McQueen sempre foi de ser esse tipo de pessoa - aquele que provoca emoções, mesmo que sejam as de repulsa, e não amor. E talvez por isso ele seja esse enfant terrible, essa pessoa incompreendida.

Falo isso tudo porque o tapete vermelho do Met Gala, pra mim, demonstrou exatamente isso: a completa incompreensão do trabalho de McQueen. Em um evento onde as pessoas deveriam se inspirar por seu trabalho, todos optaram por renda e minimalismo. As mesmas tendências que vemos por aí, em qualquer lugar. Estão de acordo com o presente momento na moda? Claro. Estão bonitas? Sem dúvida. Mas pra mim o baile serve como uma válvula de escape fashion, um momento em que as pessoas tem para soltarem a sua Bjork interna e serem completamente selvagens em suas escolhas.

Por isso mesmo não dá para o tapete vermelho do Met Gala ser visto sob a mesma ótica que um Oscar. Ele dá a todos que vão ao baile uma chance de ser modelo, ele é uma passarela. Por mais extravagante ou doida que sua roupa possa ser, ali é o momento de mostrá-la ao mundo.






quem quiser ver em detalhes, é só clicar nas imagens que elas aumentam!


Só que eu nunca fui daquelas pessoas que, quando convidada para uma festa à fantasia, escolhia a versão piriguete de Mulher-Gato ou qualquer coisa semelhante. Ou coisinhas bonitinhas, tipo princesinha ou anjinho. Eu sempre fui a louca da panela, que curtia em fazer as fantasias mais mirabolantes e saía de Smurf, toda pintada de azul (e claro, sem poder encostar e/ou beijar ninguém) ou Cruela Cruel. Até de Mônica, com cabelo curto cheio de gel pra ter "bananas" na cabeça ao invés de cabelo eu já fiz.

Então, pra mim, o Met Ball é a versão adulta e fashion desses meus momentos. E me entristece ver muita gente elegendo Calvin Klein Collection, Michael Kors ou Stella McCartney como sua interpretação do que é a essência de McQueen (eu colocaria como polos opostos e que se repelem, que nem ímã!) e, além de tudo, sendo eleita como "as melhores vestidas" para o evento. Sei lá... é realmente endossar que a moda, como conceito, não é nada - e o que vale mesmo é o marketing que essas companhias despejam em nós. Aquele esqueminha "temdemsia", sabe?

Isso foi só um desabafo - não quero que ninguém se sinta ofendido pelo meu texto. Cada um tem o direito à sua opinião e de gostar do que quiser. E eu não gostei de ver a imagem tão contundente e impactante de McQueen ser massacrada pelo minimalismo, por um "brilhinho" e por uma "rendinha" - tudo em prol do "aparecer bonita na foto e não ser gongada pelos sites e blogs"... Sentindo falta da Bjork no Oscar, viu?

P.S.: Quem quiser se aprofundar mais sobre a exposição de McQueen no Costume Institute, é só dar uma olhada nos vídeos que o Metropolitan fez sobre algumas de suas coleções. É em inglês mas vale a pena só pelas imagens (se você não dominar a língua!). Além disso tem imagens, explicação sobre o evento e até um app pra Ipad que a Vogue fez especialmente pra exibição!


P.S.2: Coloco abaixo um vídeo que a Vogue US fez dentro do Met Gala. Super legal, mostra muitas roupas em movimento (coisa que faz uma diferença absurda na hora de "gongar" ou elogiar alguém) e pelo menos mudou minha opinião sobre as escolhas de diversas convidadas (Karolina Kurkova e Mary J. Blige me surpreendendo positivamente no "ao vivo")!





P.S.3: O Fashionista fez as contas e colocou números interessantes sobre o tapete vermelho do Met Gala. O resultado mais impressionante? Mais vestidos Stella McCartney (que era co-host do evento) que McQueen. Vai entender... 

P.S.4: Daphne Guinness - musa de McQueen e uma de suas admiradoras mais fervorosas - se vestiu para o evento em uma vitrine da Barney's! O Huffington Post fez uma ótima edição do momento, entrevistando pessoas que estavam ali só para ver a performance da herdeira das cervejas Guinness e uma das maiores colecionadoras de couture da nossa época.


Então? Provoquei repulsa ou amor com meu texto? :)

9 comentários - Comente aqui!:

Deinha Rocha said...

Mesmice mesmo... Este Met foi bem morno!

!Xo!
www.sofashionist.blogspot.com

Lu Jordão said...

Em mim amor! Porque essa "uniformidade" que toma conta do mundo (moda, blogs, revistas) enjoa... Ler outros pontos de vista, analisar outros ângulos da moda, cultura, arte tem se tornado algo necessário... Veja todos os blogs aqui no Brasil que comentaram sobre o assunto: as mesmas fotos, a mesma abordagem. E os vestidos foram repetitivos sim! Totalmente... Adorei a abordagem/desabafo! Bjos.

Nai said...

Adorei o soltando a Bjork...rs
Muito bacana esse texto e eu concordo com você que a essência se perder quando as pessoas só pensam em sair "bem" na foto.

Beijus

querou aquino said...

gente, obrigada pelos comentários positivos!

achei que só fosse receber pedrada, ser tachada de "a pedante". é exatamente o contrário... é querer que as pessoas saiam dessa "caixa" de conformismo, de achar que bonito é só vestidinho com brilhinho. sei lá, bjork tem o seu valor às vezes... hehehe. :D

Vanusa Rocha - Blog Bonequinha de Luxo said...

Carol, vc sabe que te adoro né, nem preciso comentar, sempre venho aqui esperando uma "aula" e nunca me decepciono, eu como todos os blogs como bem disse a Lu Jordão, postei as mesmas fotos, sem muita preocupação com o que sinto, pois infelizmente a maioria das pessoas gostam de fotos e pouquíssimas se dão ao trabalho de ler o que escrevemos, vc sabe disso, mas eu concordo com você , e o que amo no McQueen é justamente o fato de vc parar numa vitrine e ficar horas em êxtase com seu trabalho, é como vc mesma disse, influências históricas misturadas com coisas imaginárias, mas no Met até quem escolheu vestir McQueen, escolheu o óbvio, bjs, Va.

Pati E. said...

Amor!!! amei seu texto e concordo plenamente com td!!!
beijo grande

Jess said...

Carol, que post incrivel! Extremamente sensivel e informativo. Realmente, ao ver as fotos do tapete vermelho do Met Gala, eu - que nao entendo NADA de moda - fiquei praticamente ofendida com a falta de compreensao dessa galera que deveria se sentir honrada por estar la.

Um dos seus melhores posts ever!!! Bravo!

Jess said...

Carol, que post incrivel! Extremamente sensivel e informativo. Realmente, ao ver as fotos do tapete vermelho do Met Gala, eu - que nao entendo NADA de moda - fiquei praticamente ofendida com a falta de compreensao dessa galera que deveria se sentir honrada por estar la.

Um dos seus melhores posts ever!!! Bravo!

querou aquino said...

Jessie! muito obrigada, senhoura! :)

e pois é... eu acho que deveria começar a rolar um BAN pra gente que não se veste apropriadamente... hehehe.

beijos!

 
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