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Friday, 19 August 2011

o que devemos discutir pós-Zara e trabalho escravo

Eu queria começar esse post com um "disclaimer": o escrito anterior não é nenhum tipo de manifesto de superioridade da minha parte só porque comentei sobre o episódio da Zara. A intenção, na realidade, era de levantar a discussão, que talvez fique presa na garganta pura e simplesmente porque envolve um assunto mais difícil de ser comentado. Esse post talvez explicará melhor a minha intenção.

Eu queria começar contando uma estória que ouvi de uma pessoa muito querida sobre sua visita ao Brasil recentemente. Ela é brasileira radicada em Londres, mora por aqui há mais de 25 anos e é casada com um britânico. Ela voltou ao Brasil para visitar sua família e, num determinado momento, foi levar sua mãe ao médico em um hospital público no interior de São Paulo. Todo mundo sabe como é um hospital público no Brasil - acho que não preciso ilustrar... - e, esperando já por algumas horas, ela nota que uma mulher com duas crianças, todas com cara de "indígena andino" (aqueles que normalmente vem da Bolívia, Peru, ou partes do Chile), estão lá há mais tempo que ela. A criança pequena, no colo da mãe, chorava horrores sem parar. Nesse momento, a mãe dela é chamada para ser atendida. Ela se levanta e comenta com a enfermeira que chamou sua mãe que aquela mulher estava ali por mais tempo que elas, logo deveria haver algum engano na ordem de chamada. A mulher responde rispidamente: "aquela ali só vai ser atendida quando aprender a falar português. E a senhora, vai querer ser atendida ou não?".


Somos todos iguais:


Voltarei a essa estória daqui a pouco. Primeiro, gostaria de falar sobre como viver fora do país me fez abrir os olhos sobre o Brasil. Tem a ver com o que eu tenho a dizer sobre a Zara, não se preocupem! Graças a Deus, fui abençoada por uma vida que me leva a diversos cantos do mundo. Eu sempre me senti meio "peixe fora d'água" no Rio, nunca me encaixei perfeitamente ao sistema "praia, malhação, Carnaval, calor e futebol". Não sou gostosona, não gosto de praia, malhar não é o meu forte, detesto calor como poucas coisas na vida. O Vasco não ganhou tanto quanto pôde quando eu era pequena, e meus pais torcem para outros times. Eu sempre amei Carnaval mas meus pais sempre fizeram questão de estar o mais longe possível do Rio nessa época. Dá pra sentir o resultado disso, né. Além disso, eu sempre achei que casaria com um "gringo" e que viveria fora do país. Acho que, no fundo, foi o que eu sempre quis (e não o que eu *sentia*). O gringo não é gringo, é petropolitano - apesar de ter uma carinha de gringo que ó...


viemos todos dos mesmos ancestrais (bíblicos ou mamíferos, o que você preferir)


Volto ao ponto: eu tinha tudo para ser pessimista com relação ao Brasil. Na verdade, eu sou muito pessimista com relação ao Brasil. Ao ponto de viver fora dele. Mas o pular de galho em galho, estar um dia em Barcelona, no outro em Estocolmo, depois no Cairo me fez ver como o Brasil está quase lá. Nos colocam junto com China, Índia, Rússia, África do Sul. Eu nunca fui a nenhum desses países (ainda, espero eu!), mas a impressão que me passa é que nós somos os mais próximos de um ideal de "primeiro mundo". Na verdade, diversos amigos que já visitaram esses países me afirmam isso. Que o Brasil, olhando com um olhar de visitante, muitas vezes já parece um país de primeiro mundo. Claro: eles não tem que pegar trânsito todo dia pra ir pro trabalho sem opção de um sistema de transporte público de qualidade, não tem que enfrentar a violência que tanto nos marca, não sabem o que é viver brigando com o resto do país por seus direitos.


temos todos os mesmos direitos


Mas eu sei. Eu vivi isso por muito tempo. E eu posso dizer que é verdade: estamos quase lá. Apesar de todo o meu pessimismo, isso é uma realidade. Um quase tão quase, que muitas vezes me parece que nesse último século (o vinte), nós corremos absurdamente em direção à linha de chegada dessa maratona que é "ser um país legal", cansamos nos 500m finais, paramos pra dar aquela respirada e pensamos "ah, tá bom por aqui... 41.5km é quase 42...". E ficou por isso mesmo. Ou talvez porque esses 500m finais sejam os mais difíceis. Os tais 3 quilos finais de uma dieta. Os últimos dias de tratamento médico, os dias entre descobrir que você tem que terminar o seu relacionamento e realmente fazê-lo. É um período difícil, conturbado, complicado e dolorido. É quase um esforço sobre-humano, muito pior que o inicial.


somos todos igualmente mentirosos e caras-de-pau


Mas, pra mim, tudo isso se traduz em medo. Muita gente desiste de perder os últimos três quilos, de terminar o relacionamento porque tem medo do que vem pela frente. Fiquei magra, estou solteira, e agora? E acho que o mesmo acontece com o Brasil. Estamos meio perdidos. Sabemos como é ser "terceiro mundo", sabemos como é ser "emergente" e ser "BRIC". Mas não sabemos o que é ser um "Brasil primeiro mundo". Nunca aconteceu na nossa história. Sempre fomos rural, agrário, dependente. Não sabemos como é ser "potência".

Aliás, a algum tempo somos a potência da América do Sul, apesar de querermos negar nossa posição com todas as forças; "ah, mas tem a Argentina, a Venezuela com o Chaves...". É, galera, mas quem segura o rojão somos nós. Eles todos nos vêem como *os imperialistas* - quer nós queiramos ou não. E nós, que só sabemos ser amigos, bons de papo, carismáticos com nosso sambinha, achamos que estamos "todos no mesmo barco". E não estamos.


somos todos "aliens" ou "estranhos" em algum momento de nossas vidas


Volto agora à estória contada lá em cima. A última "invasão estrangeira" que o Brasil teve foi logo após a abolição da escravatura. Somos essa miscigenação toda da qual nos orgulhamos porque italianos, alemães, polacos, japoneses, espanhóis, e muitos outros vieram pra cá para substituir mão-de-obra escrava. Todo mundo lembra de "Terra Nostra" - e quem não lembra, joga no Google e descobre, porque foi uma das últimas ótimas novelas da Globo - e sabe como os coitados sofreram. Eles eram cidadãos de segunda classe em nossas terras. E agora, quase 150 anos depois, começa a "invasão latina". E também a "invasão chinesa", a "invasão Moçambicana/Angolana", e algumas outras mais. De novo, os vemos como cidadãos de "segundo escalão". É fácil fazer piada do chinês que não fala o "R", o angolano de sotaque engraçado, o boliviano que não fala a nossa língua. E achamos que cidadão de primeiro mundo é europeu... aquele mesmo que foi subjugado há 150 anos atrás.

Estamos mais uma vez em uma posição privilegiada e, ao mesmo tempo, desconfortável. Milhões de pessoas se mudando para o "nosso" país, que não entendem a "nossa" cultura, que não falam o "nosso" idioma. Mais ou menos o que reclamamos quando viajamos para o exterior, e somos tratados como "escória". É fácil reclamar, porém difícil de ver quando somos nós quem o fazemos.


rimos, sorrimos, choramos, pulamos e cantamos da mesma maneira


O caso da mulher boliviana (ou chilena, peruana) é um dentre possíveis milhares que acontecem todos os dias. E o caso da Zara é mais um deles. Bolivianos que vem pensando que terão uma vida melhor "no país mais desenvolvido da América do Sul". Não nos damos conta, mas estamos na mesma posição que os Estados Unidos está para todos da América do Norte/Central. Ou da França e do Reino Unido para muitos outros. Somos "desenvolvidos" aos olhos de muuuuuitos outros países do mundo.


E o meu post de ontem sobre a falta de "opiniões" a respeito do episódio da Zara não é para me destacar, ou para apontar dedos. É simplesmente para gerar a discussão. Porque nós já estamos no estágio onde devemos começar a discutir temas que são mais complexos como imigração ilegal, condições de trabalho e de produção, penalizações contra empresas e, mais precisamente, nossa condição como país emergente. Emergente não quer dizer "terceiro mundo", quer dizer "quase lá". Apesar de não querermos aceitar (ou termos medo em fazê-lo), somos sim diferentes do resto. Já estamos em um patamar diferenciado.

E isso não é "feio" ou algo a ser escondido. Trabalhamos duro por isso, sofremos muito. Passamos por maus bocados, mil e um planos econômicos, inflação exorbitante, governantes doidos, crises fortes. Galgamos nossa subida; sangue, suor e lágrimas. Não temos que ter vergonha de nossa posição. Muito menos medo do futuro que nos aguarda.



cometemos crimes todos os dias


Tratar de assuntos delicados como esses, é - well - delicado. É muita coisa envolvida, muita gente que pode ser prejudicada, muitas vidas em jogo. Mas é isso o que um país de (quase) primeiro mundo faz.

Por isso que quando eu escrevo a respeito dessas coisas e digo que sou totalmente contra "boicotes", é porque boicotes são a forma *avestruzesca* de lidar com o problema. Regimes de quase escravidão não acontecem somente com fábricas contratadas pela Zara; na verdade, eles não acontecem somente no mundo da moda, e muito menos só em terras brasileiras. Boicotar por boicotar, é simplesmente voltar a viver na época das cavernas. Cada um planta o seu, produz o seu, e pronto. Acaba-se dinheiro, sistema capitalista, tudo. Pode ser que essa seja a solução pra daqui a alguns milhares de anos? Talvez. Mas hoje em dia não é.

A solução de verdade é falar a respeito. É cobrar atitudes do governo, cobrar atitudes da empresa. Se o boicote é organizado de forma à empresa ouvir um pleito (que seja realístico), estou dentro. Se é só pra fazer auê no Twitter e posar de politicamente correto, muito obrigada.


temos os mesmos sonhos, desejos e ambições. Somos, essencialmente, iguais.


Além do mais, acho que o ponto aqui não é sobre a Zara - ou sobre a moda. Temos que refletir muito além disso, e esse evento serve como um ótimo catalisador para isso. Como eu havia dito antes, nossas atitudes diárias tem consequências, e devemos arcar com isso. Se tomamos decisões erradas, que levemos a portada na cara. Na moda, na política, na alimentação, na saúde, no transporte, em tudo. Devemos tomar decisões informadas, e essa é chave. E, para isso mesmo, devemos discutir. Trocar idéias, ler muito sobre tudo, ouvir opiniões, mesmo que diferentes das nossas. Assim fazem os países de primeiro mundo, assim fazem os "cidadãos de primeira classe".

Chegou a nossa hora de agir assim - quer nós queiramos ou não.


P.S.: Todas as imagens vem do ótimo trabalho que a Benetton desenvolveu ao longo de anos através de suas propagandas, mostrando que, apesar de tudo, somos todos iguais. Na época, eles foram pioneiros em instigar a discussão sobre temas polêmicos como a discriminação racial, de portadores de HIV, entre outros. Pra quem quiser ver mais imagens, há um acervo ótimo aqui - de onde essas imagens aqui utilizadas foram retiradas.

Thursday, 18 August 2011

Zara, trabalho escravo e alguns pensamentos soltos

Eu quero escrever com tempo sobre isso. E, principalmente, algo com começo, meio e fim. Porque aqui já são quase 4 da manhã, o sol da meia noite já foi dormir e já apareceu novamente, só vai sair coisa estranha desse teclado. Mas pode deixar, caro amigo leitor (meu sono me coloca numa vibe locutora de rádio brega), que assim que eu puder, vai sair o texto "sério'.

Quem é frequentador assíduo sabe que esse é um dos assuntos que eu mais curto escrever a respeito. Na verdade, um dos textos que eu escrevi para o application do meu mestrado era exatamente sobre isso. Não sobre o trabalho escravo em si, mas sobre como uma fast fashion não pode ser ecologicamente correta, mesmo que ela tente vender essa idéia (*cof*, H&M...). E que ela não pode existir num meio que respeite qualquer tipo de proteção, seja ela do meio-ambiente, dos animais, dos seres humanos. A conta simplesmente não fecha.

E eu também escrevi sobre o "boicote" à Arezzo. Aquela, a que lançou uma coleção com pele verdadeira. Ninguém se lembra mais, acho eu. Pois é. Por isso mesmo, nem vou entrar de novo no mérito dos tuiteiros de plantão que *adouram* um furdunço pra se posar de politicamente corretos. Mas, cada um com seu cada um. Eu, como Ana Carolina temente à Deus, sei que respondo a ele. E, mesmo tirando Deus da equação, eu sou coerente no meu colóquio - aliás, *coerência no discurso* é a chave do negócio... Somos todos responsáveis por nossos atos diários, começando pelo livre-arbítrio de abrir ou não abrir os olhos de manhã quando o despertador toca. Cada minúsculo ato, por mais imperceptível, tem o seu "efeito borboleta". Afeta alguém. Então, eu com o meu, você com o seu, e todo mundo respondendo pelas atitudes impensadas. Não é só pra época eleitoral que esse jargão vale.

Continuo comprando na H&M - teria como não fazê-lo, ainda mais em terras suecas? -, continuo comprando na Zara. E na Primark, na Topshop, como também num ocasional Alexander Wang, Opening Ceremony ou Marc Jacobs. Porque, né, eles também praticam atos abomináveis. Todos no mundo da moda praticam; acho ingênuo quem pensa que não. Aliás, todos no mundo praticam, inclusive eu e você. Seja a multa não paga esperando um indulto, a propina passada ao policial pra liberar o carro parado em local irregular. O dinheiro pro flanelinha. Passar na fila porque você tá com sua mãe que tem mais de 60 mas que tem saúde, corpo e mente de quem tem 40. E por aí vamos...

Mas eu não quero me alongar em política. Ou em Brasil. Quero mesmo é falar sobre o episódio, sobre tantos episódios que eu já vi desde que me mudei pra cá, e também sobre tanta gente corajosa que resolveu falar a respeito. Porque o que mais me impressionou sobre esse episódio, ao contrário do da Arezzo, foi que ninguém falou nada. NA-DA. Necas. Zero. Silêncio completo e absoluto. Ninguém deu sua opinião própria. A única que vi - e me corrijam se estiver errada - foi a Jojo. Até joguei no Google. Nem Vogue, nem Ela (o caderno do Globo sobre moda), nem Elle, nem o bloguinho da tia maricotinha.

Sei lá, vai ver foi no Twitter. E só. Mas me impressionou a passividade. Acho que doeu mais profundamente porque Zara é Zara. To-do-mun-dow compra na Zara. Ela é a opção da tia quatrocentona milhonária à adolescente que mora no sub-subúrbio do subúrbio e poupa pra comprar um vestidinho no final do mês. É a única fast fashion que pode ser assim chamada no Brasil (não sei como andam Renners e outras, mas na época que saí do Brasil, elas eram o equivalente a fondant em bolo de casamento - conteúdo mesmo nada, só enfeite). E mesmo assim, ô fast fashion caro. De acordo com meus cálculos, de 40 a 70% mais cara que na fonte, nas terras de Cervantes.

E aí eu acho que bateu no coração. O pensamento antigo de "eu não terei Arezzo mas terei Schutz" não vale mais. Eu não terei Zara mas..... ops? É difícil tomar essa decisão de boicotar uma empresa que é tão parte desse fenômeno blogosférico. E do fenômeno da percepção da moda no Brasil.

Moda, até ontem, era coisa de costureira. Dava dinheiro não... Aliás, ainda não dá (praquelas meninas que acham que glamour = dinheiro já saberem que o "não necessariamente" se aplica aqui mais do que em outras áreas!). Mas era relegado a segundo plano. Nem faculdade de moda existia, gente. Quem queria fazer roupa, que comprasse uma Singer e boa sorte. Aliás, pra muita gente hoje ainda é assim.

E chegamos a isso. Todos calados porque a Zara era o ídolo, o bastião. Perdeu-se o ídolo, perdeu-se o rumo? Acho que não. Na verdade, penso que ídolos são substituídos com o tempo não porque eles, um grande dia, pecam. Nós é que crescemos mais que eles; o famoso *outgrow* inglês que encaixa tão perfeitamente aqui. A gente vê que eles também erram. E aí aquela aura de perfeição cai por terra.

O que a Zara fez pelo Brasil foi grande. Abriu portas e olhares. Nós agora somos grandes consumidores não somente de logomarcas, mas também de tendências. As pessoas em geral estão ficando mais trend-aware. E eu bato palmas e agradeço ao seu Amâncio Ortega por isso. Sem ele e sem seu conglomerado, a gente talvez não estaria onde está. Mas é. Quebrou o encanto. E eu não sei se, como todas as coisas que acontecem no Brasil, vai pro esquecimento. Mas o que achei legal desse episódio todo é como, cada vez mais, estamos vivenciando problemas de primeiro mundo. Discutir de onde vem nossos produtos, estabelecer que depende de cada um tomar suas próprias decisões e arcar com as consequências delas. Mesmo que ainda sejamos parte de um país onde a impunidade reina, a perspectiva é que a tal "faixa" pra se cruzar pro mundo desenvolvido tá cada vez mais próxima.

Mundo da moda brasileiro "adolescente" aprendendo que seus pais também são humanos. Acho que essa era a frase que eu procurava pra definir a nossa situação. Pois bem, tá aí. Meu único pedido é que a gente não eleja um bezerro de ouro como próximo ídolo e sigamos em frente. Porque errar é humano, mas insistir no erro é burrice.

 
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