Eu quero escrever com tempo sobre isso. E, principalmente, algo com começo, meio e fim. Porque aqui já são quase 4 da manhã, o sol da meia noite já foi dormir e já apareceu novamente, só vai sair coisa estranha desse teclado. Mas pode deixar, caro amigo leitor (meu sono me coloca numa vibe locutora de rádio brega), que assim que eu puder, vai sair o texto "sério'.
Quem é frequentador assíduo sabe que esse é um dos assuntos que eu mais curto escrever a respeito. Na verdade, um dos textos que eu escrevi para o application do meu mestrado era exatamente sobre isso. Não sobre o trabalho escravo em si, mas sobre como uma fast fashion não pode ser ecologicamente correta, mesmo que ela tente vender essa idéia (*cof*, H&M...). E que ela não pode existir num meio que respeite qualquer tipo de proteção, seja ela do meio-ambiente, dos animais, dos seres humanos. A conta simplesmente não fecha.
E eu também escrevi sobre o "boicote" à Arezzo. Aquela, a que lançou uma coleção com pele verdadeira. Ninguém se lembra mais, acho eu. Pois é. Por isso mesmo, nem vou entrar de novo no mérito dos tuiteiros de plantão que *adouram* um furdunço pra se posar de politicamente corretos. Mas, cada um com seu cada um. Eu, como Ana Carolina temente à Deus, sei que respondo a ele. E, mesmo tirando Deus da equação, eu sou coerente no meu colóquio - aliás, *coerência no discurso* é a chave do negócio... Somos todos responsáveis por nossos atos diários, começando pelo livre-arbítrio de abrir ou não abrir os olhos de manhã quando o despertador toca. Cada minúsculo ato, por mais imperceptível, tem o seu "efeito borboleta". Afeta alguém. Então, eu com o meu, você com o seu, e todo mundo respondendo pelas atitudes impensadas. Não é só pra época eleitoral que esse jargão vale.
Continuo comprando na H&M - teria como não fazê-lo, ainda mais em terras suecas? -, continuo comprando na Zara. E na Primark, na Topshop, como também num ocasional Alexander Wang, Opening Ceremony ou Marc Jacobs. Porque, né, eles também praticam atos abomináveis. Todos no mundo da moda praticam; acho ingênuo quem pensa que não. Aliás, todos no mundo praticam, inclusive eu e você. Seja a multa não paga esperando um indulto, a propina passada ao policial pra liberar o carro parado em local irregular. O dinheiro pro flanelinha. Passar na fila porque você tá com sua mãe que tem mais de 60 mas que tem saúde, corpo e mente de quem tem 40. E por aí vamos...
Mas eu não quero me alongar em política. Ou em Brasil. Quero mesmo é falar sobre o episódio, sobre tantos episódios que eu já vi desde que me mudei pra cá, e também sobre tanta gente corajosa que resolveu falar a respeito. Porque o que mais me impressionou sobre esse episódio, ao contrário do da Arezzo, foi que ninguém falou nada. NA-DA. Necas. Zero. Silêncio completo e absoluto. Ninguém deu sua opinião própria. A única que vi - e me corrijam se estiver errada - foi a Jojo. Até joguei no Google. Nem Vogue, nem Ela (o caderno do Globo sobre moda), nem Elle, nem o bloguinho da tia maricotinha.
Sei lá, vai ver foi no Twitter. E só. Mas me impressionou a passividade. Acho que doeu mais profundamente porque Zara é Zara. To-do-mun-dow compra na Zara. Ela é a opção da tia quatrocentona milhonária à adolescente que mora no sub-subúrbio do subúrbio e poupa pra comprar um vestidinho no final do mês. É a única fast fashion que pode ser assim chamada no Brasil (não sei como andam Renners e outras, mas na época que saí do Brasil, elas eram o equivalente a fondant em bolo de casamento - conteúdo mesmo nada, só enfeite). E mesmo assim, ô fast fashion caro. De acordo com meus cálculos, de 40 a 70% mais cara que na fonte, nas terras de Cervantes.
E aí eu acho que bateu no coração. O pensamento antigo de "eu não terei Arezzo mas terei Schutz" não vale mais. Eu não terei Zara mas..... ops? É difícil tomar essa decisão de boicotar uma empresa que é tão parte desse fenômeno blogosférico. E do fenômeno da percepção da moda no Brasil.
Moda, até ontem, era coisa de costureira. Dava dinheiro não... Aliás, ainda não dá (praquelas meninas que acham que glamour = dinheiro já saberem que o "não necessariamente" se aplica aqui mais do que em outras áreas!). Mas era relegado a segundo plano. Nem faculdade de moda existia, gente. Quem queria fazer roupa, que comprasse uma Singer e boa sorte. Aliás, pra muita gente hoje ainda é assim.
E chegamos a isso. Todos calados porque a Zara era o ídolo, o bastião. Perdeu-se o ídolo, perdeu-se o rumo? Acho que não. Na verdade, penso que ídolos são substituídos com o tempo não porque eles, um grande dia, pecam. Nós é que crescemos mais que eles; o famoso *outgrow* inglês que encaixa tão perfeitamente aqui. A gente vê que eles também erram. E aí aquela aura de perfeição cai por terra.
O que a Zara fez pelo Brasil foi grande. Abriu portas e olhares. Nós agora somos grandes consumidores não somente de logomarcas, mas também de tendências. As pessoas em geral estão ficando mais trend-aware. E eu bato palmas e agradeço ao seu Amâncio Ortega por isso. Sem ele e sem seu conglomerado, a gente talvez não estaria onde está. Mas é. Quebrou o encanto. E eu não sei se, como todas as coisas que acontecem no Brasil, vai pro esquecimento. Mas o que achei legal desse episódio todo é como, cada vez mais, estamos vivenciando problemas de primeiro mundo. Discutir de onde vem nossos produtos, estabelecer que depende de cada um tomar suas próprias decisões e arcar com as consequências delas. Mesmo que ainda sejamos parte de um país onde a impunidade reina, a perspectiva é que a tal "faixa" pra se cruzar pro mundo desenvolvido tá cada vez mais próxima.
Mundo da moda brasileiro "adolescente" aprendendo que seus pais também são humanos. Acho que essa era a frase que eu procurava pra definir a nossa situação. Pois bem, tá aí. Meu único pedido é que a gente não eleja um bezerro de ouro como próximo ídolo e sigamos em frente. Porque errar é humano, mas insistir no erro é burrice.
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Thursday, 18 August 2011
Zara, trabalho escravo e alguns pensamentos soltos
escrito por querou aquino at 10:53 pm 0 comentários - Comente aqui!
Labels: brasil, moda, tendência, tendências, trabalho escravo, um ano sem zara, zara
Monday, 23 May 2011
você conseguiria ficar um ano sem compras?
Pra quem ainda não conhece – e olha que acredito que não seja muita gente já que esse blog, com apenas 80 dias de vida, já apareceu no It MTV, no site da Revista Criativa, nas seções de moda da Folha, Estadão, Correio Braziliense e outros mil – apresento Joanna Moura. Ela é dona do blog Um Ano Sem Zara, criado com a intenção de manter Joanna fiel a uma promessa: ficar um ano sem comprar nadica, nem uma pecinha de roupa, sapato, acessório, bolsa... nada!
Coincidências do destino, uma amiga me enviou o link do blog há mais ou menos dois meses atrás, e quando vi as imagens fiquei pensando ‘nossa, conheço essa menina de algum lugar’. Uns dois dias depois, me vem a luz: ela era amiga de um amigo meu, e eu sim a conhecia! Não intimamente, mas trocamos palavras num show e depois nos divertimos juntas em uma festa de Ano Novo na casa desse amigo em comum.
Na verdade, o motivo pelo qual me lembrei do rosto de Joanna foi pelo vestido que a moçoila usava no dia do show: branco, estilo camisetão, simples porém lindo, com um cintinho amarrado na cintura fazendo um estilo super despojado porém chique (e sim, eu tenho memória fo-to-grá-fi-ca pras roupas que eu amo. É um INFERNO). Joanna esbanjava estilo e eu, naquela época fazendo fotos de street style, fiquei morrendo de vergonha de tirar umas fotos dela (por incrível que pareça é mais fácil tirar fotos de desconhecidos andando pelas ruas que pessoas que tem uma certa “conexão” contigo – afinal, além da cara de pau tem que ter muito know-how pra foto sair linda de morrer!).
Pois bem... o tempo passa, o tempo voa, e aqui estamos nós, eu e Joanna, separadas por um e-mail, onde lhe pergunto tudo e quero saber como está sendo essa nova vida de “sensação bloguística”!
meu look favorito até o presente (mas eu sei que Joanna ainda vai trazer muitos outros pra eu amar!)
- inspirado em Carrie Bradshaw do Sex and the City
- inspirado em Carrie Bradshaw do Sex and the City
1. Então... Eu sou mega-fã do seu blog e não sou a única! A blogosfera da moda está em polvorosa com a sua chegada. O seu formato é inovador no círculo brasileiro e acho que muitas pessoas se identificam com você – afinal, todo mundo já teve um cartão de crédito no vermelho, já pesou na mão nas comprinhas e não resistiu a uma ida ao shopping. Você esperava esse sucesso todo tão repentinamente?
Não imaginava essa repercussão! Achava que no máximo, a minha mãe, o meu namorado e amigos mais próximos íam prestigiar a minha loucura. Foi maravilhoso poder trocar experiências e sentir o apoio de pessoas que eu nem conhecia mas que viviam dramas parecidos com os meus.
Não recebi nenhuma proposta. Se receber, quem sabe? Vamos ver!
3. Todo mundo já sabe que você começou o seu blog como uma forma de se manter fiel à promessa de não comprar roupas por um ano inteiro. Mas, e se o sr. Amancio Ortega, dono da Zara, te ligasse falando “Joanna, estás acabando con mi negocio en Brasil!!! Todas agora só querem comprar muito esporadicamente, isso quando compram! Por isso, te pago um milhão pra você parar com seu blog e, ao contrário, virar garota-propaganda da Zara, fazendo sempre um look por dia com uma peça Zara”. Você aceitaria?
Ahahahhaha!! Acho bem difícil isso acontecer! Confesso que ficaria bem tentada!
Realmente é difícil definir um estilo. Acho que sou bastante eclética. Me visto de acordo com o humor, a ocasião, o clima, enfim. E gosto de coisas que me caem bem e nas quais eu me sinta bem. Roupa tem que deixar a gente se sentindo bonita. Não gosto de nada muito colado, nem barriga de fora.
Acho que as marcas brasileiras estão sim correndo atrás do prejuízo e investindo em design e qualidade. Prova disso são as parcerias com designers como Stella McCartney ou Cris Barros. Mas a moda brasileira ainda tem que correr muito atrás de baratear os seus preços e se tornar mais acessível.
Nossa, que difícil!!!! Gostaria de pensar numa marca bem acessível mas que tivesse uma preocupação com design. Sei lá, uma marca de roupas de supermercado! Seria divertido.
Leio a Vogue religiosamente. Sigo no twitter, coleciono a revista, essas coisas. Além disso gosto de blogs de streetstyle que tenham um lado mais artístico também, como o Sartorialist. Porque ele não está de olho só na roupa, está em busca de uma atitude, um momento.
Nenhuma mulher nunca está plenamente satisfeita com o que tem dentro do armário. Eu não sou excessão. Sou do tipo que não vê problema nenhum em ter dois cintos finos amarelo-ovo bem parecidos porque vejo diferença em mínimos detalhes. Mas tenho consciência de que o meu armário é bem recheado (fruto de anos consumindo demais). Acho que ele vai me servir bem durante esse ano. Portanto, por enquanto acho que tenho tudo o que preciso por lá.
Sempre fui exibida! Mas, sem dúvida, tenho me arrumado mais. Uma coisa é você sair meio de qualquer jeito e ninguém te ver. Outra coisa é você sair mulamba e colocar isso na internet. Mas essa "obrigação" de me arrumar mais (e sempre) tem sido um exercício divertido. E, com todo exercício, a gente vai ficando melhor com a prática.
10. E quanto a parte ‘social/antropológica” do projeto: tirando a poupança de lado, você está se sentindo melhor em não comprar tanto? Você poderia ser um “estandarte” para diversos grupos que se preocupam com consumo responsável – aliás, já devem ter vários deles de olho em você... ;) Em algum momento você pensou sobre esse tema e como essa mudança nos nossos hábitos de consumo podem auxiliar o planeta ou a melhoria da vida dos trabalhadores da indústria da moda?
Preciso confessar que o objetivo inicial do blog não teve a ver diretamente com a questão da sustentabilidade. No entanto, depois que comecei com a iniciativa percebi como isso é uma consequência bacana desse comportamento.
Eu espero já ter alcançado um nível de equilíbrio mental que me faça não sair correndo pra um shopping assim que o desafio acabar.
Dá pra ver pelas imagens que Joanna esbanja estilo, é linda - o que eu não faria com um par de olhos desses! - e tem um bom gosto absurdo. Pelo menos eu curto muito! E eu vejo o Um Ano sem Zara não somente como uma forma de Jojo (como é carinhosamente conhecida no mundo bloguístico) trazer sua conta bancária de volta ao azul. Hoje ele é um dos poucos blogs brasileiros que realmente mostra looks inspiracionais, ao invés de uma mera repetição de tendências e outros blogs internacionais.
E, além do conteúdo, acho que ele é um bom estandarte (mesmo que sem querer) de que podemos sim viver com o que temos, que dá pra ser mais seletiva ao fazer compras (não somente de roupas e acessórios, mas de tudo!) e na grande maioria das vezes reclamamos de barriga cheia de nossos armários! O que precisamos não é de um novo vestido ou blusa, e sim de informação de qualidade sobre moda. Algo que nos faça ver nossas peças com outros olhos, achar novas combinações e que nos faça sair da nossa zona de conforto. Parar de usar aquela combinação "jeans+topzinho+bolsa+salto", sabe?
Porque tem muito mais na moda que isso - e o divertido e gostoso da moda é se embrenhar por esse lado "desafiador" e ousado. Joanna tá aí pra mostrar isso.
escrito por querou aquino at 9:46 am 6 comentários - Comente aqui!
Labels: bloggers, blogs, joanna moura, moda, tendência, tendências, um ano sem zara
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